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História da Freguesia de Barreiro de Besteiros
A Freguesia de Barreiro de Besteiros pertence ao Concelho de Tondela, que foi criado em 1836 e que tem raízes históricas antiquíssimas, embora não oferecendo documentação anterior ao Século X.
A antiguidade do povoamento na região, encontra-se referida nas informações prestadas ao Dicionário Geográfico (século XVIII) pelo padre do Barreiro, Caetano Ferreira de Almeida quando escreveu: “ter sido a sua freguesia habitada pelos Mouros, como mostram as aparências de uns círculos que se acham sobre o lugar da Tojosa, com indícios de terem sido murados (ou fosse de Mouros ou de Cristãos) que, para se defenderem; subiam a estes sítios e neles habitavam.”
Um importante documento para o conhecimento da história do Barreiro são as Inquirições, de D. Afonso III (1258).
As Inquirições mostram que o Barreiro pertencia à Paróquia de Castelões, termo de Besteiros –
parrochia de Castellaniis.
O Rei D. Afonso III possuía, no Barreiro, terras reguengueiras das quais recebia o respectivo tributo.
Após o aparecimento dos grandes donatários na região, D. Manuel concede foral novo a Terra de Besteiros pelo qual, os habitantes do lugar do Barreiro pagavam anualmente à fossadeira, trinta e seis reais.
A fossadeira seria sucedânea às Cavalarias referidas nas Inquirições de 1258.
A freguesia compreende, além da sede, mais dez povoações: Amieira, Arnosa Borralhal, Corveira, Marruje, Pego Negro, Tarrastal, Tojosa, Vale, Vale do Porco e, ainda a Quinta das Cavadas, localizada bem no coração da Serra do Caramulo.
De acrescentar que em 1986, por decisão da Assembleia da República, foram desanexadas da Freguesia as povoações de Tourigo e Pousadas, que deram origem à actual Freguesia do Tourigo.
Até 1943, a Freguesia tinha o nome de Barreiro. Dado haver mais nomes iguais no País, por sugestão dos CTT passou a denominar-se Barreiro de Besteiros. Esta proposta foi aprovada em reunião do Conselho de Ministros e publicada no Diário do Governo nº 45, datado de 26 de Fevereiro de 1943.
M E M Ó R I A S P A R O Q U I A I S
Convencionou-se chamar “Memórias Paroquiais” aos textos enviados pelos párocos de Portugal Continental em resposta ao questionário que lhes remetera através dos seus Bispos a Secretaria de Estado dos Negócios do Reino em 1758, dirigida então pelo Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo – Aviso de 18 de Janeiro de 1758. Constituem estas respostas os volumes 1 a 41 do Fundo com aquela designação na Torre do Tombo. Os volumes 42 e 43 contêm respostas de 1722, 1730 e 1732, dadas a anteriores inquéritos. Há um volume 44 que serve de índice.
As “Memórias Paroquiais” estão disponíveis
online
nos sites da
Torre do Tombo
e da
Universidade Nova
.
BARREIRO DE BESTEIROS
A freguesia do Barreiro que confina com o Bispado de Coimbra e primeira do Bispado de Viseu pelo Poente, tem seu princípio em um lugar chamado
Vale
, este é que dá o nome ao Vale de Besteiros assim chamado pelas Bestas de que usavam, e com elas se defendiam dos Romanos, Godos e Mouriscos, a quem presentaram batalhas com tais armas; e ainda muitos curiosos as guardam para memória. Este lugar Vale é o primeiro da freguesia que começa e se divide do Bispado de Coimbra por um rio chamado
Esporão
que tem sua origem na Serra da
Estaca
, fundo da do Caramulo, caminho da Estrada que vai para Aveiro. Consta a freguesia de dez lugares, e a póvoa do Tarrastal junto à ponte da
Várzea
; tem duzentos e dezanove fogos, seiscentos e trinta e uma pessoas maiores, e menores, noventa e nove. Tudo isso é Província da Beira, Bispado, Comarca e Provedoria de Viseu, Termo de Tondela.
Tem três senhorios: os Condes de Atouguia, de que se pagam foros em parte desta freguesia ao Real Celeiro, e dois prazos de que se paga, além dos foros do Natal, razão de seis, um de todas as novidades à Casa da Torre de
Figueiredo das Donas
, e à casa do Doutor Tomás Marques Pimenta, de
Vilar
, cujos prazos e fazendas foram de Luis de Azevedo Lobo, natural do lugar de Arnosa desta freguesia, descendentes de Lopo Fernandes de Azevedo e sua mulher Brites Afonso que ambos com seu filho Manuel de Azevedo, instituíram a Capela de S. Sebastião de Castelões, Matriz desta Igreja com obrigação de cento e cinquenta Missas cada ano, ao que obrigaram a metade da
Ramira
, junto à
Cortiçada
, com seus foros e rações, umas fazendas no
Linheiro
, e dois outros casais em
Múceres
, quase tudo em
Falorca
, e um quintal no
Casal
que hoje se presume usufruir Gonçalo Coelho com outros bens, tanto porque Luis de Azevedo, ausentando-se para Lisboa onde agora tem um Neto por nome, Doutor Luis Ferreira de Araújo e Azevedo, que administra e percebe a parte dos frutos dos ditos casais, com a obrigação das Missas; e no tempo da ausência, o dito Luis de Azevedo deixou por Procurador a um Avô do tal Gonçalo e utilizaram-se dos seus bens ele e seus herdeiros por o verem ausente na distância de cinquenta léguas, que é o que dista daqui à cidade de Lisboa, como porque, deixando-o por Procurador, foi chamando os bens seus, foi fazendo novos prazos em si, e hoje se acha senhor dos bens do
Quintal
e
Cortiçada
, com grande dano da Capela.
Está esta freguesia situada junto à Serra do Caramulo, tem Igreja Anexa à do
Salvador de Castelões
, e é Curato dos mais rendosos deste Bispado: o seu orago é
Nossa Senhora da Natividade
, e se festeja a oito de Setembro. Tem cinco altares, o Maior, o do Menino, o de Santo António e S. Sebastião, ambos no mesmo, o de S. João Baptista, em Capela à parte; porque se divide do corpo da Igreja com umas bem lavradas colunas que aguentam todo o corpo da Igreja, que é magnífica; e tem no tecto nove linhas, com nove ordens de forro. Sujeita ao Vigário de Castelões que o apresenta, e à obrigação da Capela Maior, e residência está obrigado o Comendador Rodrigo António, filho de Pedro de Figueiredo, de Lisboa, de cuja Comenda dá alguma porção ao Cura. Tem esta Capela de
S. João
que está incorporada na Igreja, uma Irmandade Ilustre e antiga, que o festeja no seu dia, com aniversário no seguinte, e festa da Degolação a 29 de Agosto. Este lugar do Barreiro é o mais populoso de toda a freguesia, pois conta perto de cem vizinhos; e tem uma Capela particular no meio com a invocação de Santa Ana; o lugar das Pousadas, uma da Senhora da Conceição; o Tourigo, outra de Santo Amaro; o Vale, outra de S. Domingos; o Borralhal, outra de S. Simão, ainda outra de S. Tiago; a Corveira, outra de S. Pedro; a Tojosa, outra de Santo Estêvão; e cada povo sustenta a sua.
Tem mais uma Ermida tão sumptuosa como se fosse Igreja no sítio da
Ribeira
, entre o lugar do Barreiro e Tojosa, com sua Irmandade sem número; tem três altares todos privilegiados para todas as Missas que neles
in perpetuum
se celebrarem por qualquer Irmão, Irmã ou Confrade da dita Irmandade. Sua invocação é a Senhora do Rosário. Antigamente se chamou Senhora do Verde, ao depois, Senhora da Ribeira, por nela estar situada; até que, promulgando-se por algum Religioso Domínico, a devoção do Rosário, este lhe mudou os títulos antigos para este que hoje tem. É tão antiga que não se sabe sua origem: alguns querem ficasse dos Mouros, muitos afirmam que dos Godos; porém só o forro parece ser de algum poderoso, que antes desta Paróquia, tinha por sua aquela Ermida, tanto pelos bens adjacentes, como porque esta Ermida, pelo decurso do tempo, tem sido acrescentada por três vezes e ultimamente, haverá menos de dez anos, mandando-se ladrilhar, se acharam junto ao púlpito que hoje tem, os ossos de um defunto, donde se mostra que era senhor dela, que ali se mandou sepultar, antes de haver Paróquia. O Domingo depois do dia de S. Tiago se faz nela um
bodo
a que concorre não só toda a freguesia mas ainda alguns moradores das circumvizinhas e Bispado de Coimbra, sem que se saiba seu princípio. Celebra-se debaixo de dois carvalhos tão imemoráveis, como o
bodo
e
Capela
, sem se saber a causa por que foi instituído; só consta por tradição ser por algum especial favor que a Senhora fez a esta freguesia. O que se tem experimentado é que, tendo crescido tanto o número dos fregueses, e com ele o dos pecados, nunca nesta freguesia houve
gafanhosa
,
pulgão
, ou geral
queima de videiras
, ficando tanto junto à Serra, onde as trovoadas mais ofendem: nem pedra, nem ponta de trovoada aqui se têm experimentado, só haverá menos de dois anos, em umas casas de
João Luis de Almeida
, do lugar de
Corveira
, Brasileiro que há poucos veio do Brasil, caiu um Cristo que, dando pelo prechal da casa, caiu ao canto da mesma, deixando intacta uma louça que ali tinha, e a ele, e seus sobrinhos que todos ali estavam deitados de noite, e ao mesmo tempo: o que tudo se atribui a milagre da Senhora pelo voto antigo do b
odo
, em que se dão muitas esmolas a pobres, e às confrarias, e Irmandades da Igreja, e outras devoções de fora, de que percebem bons rendimentos. Tem esta Ermida na porta principal em uma pedra, que está no meio do portal, quando se entra à mão esquerda, umas letras que se diz serem mouriscas, para mostrar sua antiguidade, que constando só de quatro, tem os caracteres seguintes:
donde se vê e prova a sua antiguidade: a ela concorre todos os sábados do ano muito número de fiéis e todos os primeiros domingos de cada mês, vai a procissão da Igreja com toda a freguesia; celebra-se a sua festa principal por conta da confraria no primeiro domingo de Maio, com o singular Título da
Rosa
, e a da Irmandade no primeiro domingo de Outubro com o Título do
Rosário
, e no dia seguinte Aniversário pelos defuntos irmãos. Mostra-se haver neste sítio algum tempo povoação, pelas pedras, telhas e tijolos, que por ali se acham. É muito milagrosa e se lhe oferecem muitas mortalhas e muitos milagres de
cera
: e no dia dos Santos de 1755, que eu no seu Altar disse Missa, estando antes fazendo Doutrina aos Meninos, se viu que a dita imagem estava suando como lágrimas que corriam, talvez pedindo a seu amado Filho (como creio) livrasse esta freguesia do Terramoto; e assim se experimentou; pois sendo tantos os balanços da terra, que até as lajes mármores se desuniam, e caíam as pedras e telhas das casas nas freguesias circumvizinhas, nesta se experimentou a mínima ruína com o patrocínio da Senhora, como creio e o tenho julgado.
Dista esta freguesia quase cinco léguas da cidade de Viseu, sua cabeça: serve-se do correio de Tondela, que dista légua e meia dela, e é o mesmo que vai de Coimbra para Viseu. Sua Paróquia está dentro do mesmo lugar do Barreiro.
Os frutos desta freguesia são: centeio, milho, feijão, azeite, mel, boleta de carvalho e sobro, e castanha; seu clima mui temperado, águas excelentes, abundante de árvores de espinho, e mais frutas,
maxime
nos lugares que estão na raiz da serra do Caramulo, e seus confins que se acham regados com as copiosas águas da mesma serra, que fazem deliciosa e agradável à vista os muitos prados que com elas se regam neste País.
Sua caça são lebres, coelhos, perdizes e algumas vezes se caçam javalis que arruínam as searas; também não faltam lobos que infestam o gado; e alguns há térreos ainda mais danosos.
Esta serra do Caramulo que tem seu princípio no Vale do Trigo, estrada de Aveiro, assim de Pipas como de Bestas, e passageiros para o Porto, e fenece onde se chama Ribamá, junto ao Solar de Figueiredo das Donas ou S. Pedro do Sul; terá neste território nove léguas de comprido mais ou menos, e desta freguesia até ao rio Vouga, terá de largo quatro léguas. No distrito desta freguesia correm quatro rios que nela nascem: o primeiro chamado
Esporão
ou
Rio Mau
, que a divide do Bispado de Coimbra como acima se disse; o segundo que nasce do alto da serra chamado o
Cabreiro
, que junto com os nascentes do Ribeiro Maior, e outro Regato que nasce junto do lugar de Jueus, chamado
Ninho do Corvo
, formam um rio que passa junto ao lugar do Barreiro; o terceiro, tendo o seu nascimento bem ao pé do Caramulo, e na raiz do seu outeiro, vem dar ao lugar da
Tojosa
sem outra mistura (porque este não quer ser bastardo) e distância de meio quarto se junta com o do Barreiro, que alegremente de companhia, unindo-se com o quarto, que nascendo da mesma serra, passa junto à Igreja de Castelões, qualquer deles o mais irado que se ver pode, sem esperanças de se aquietarem, e como achem companheiros como o do Pego Longo no fim do distrito desta freguesia, começam a tecer as pazes correndo com menos ira neste chamado – Crins – em distância de uma légua dos seus nascimentos e mais que de duas para diante, dando-se cabalmente as mãos de amigos, se misturam com o Dão, que benignamente os recebe e contratados todos, fazem sua foz no Mondego, que ainda que na aparência pareça diverso e mui pacífico sem ósculo de traição, qual outro Judas, vai morrer à
Figueira
.
Há nesta serra, ou no distrito que descrevo, muita criação de gado vacum e de sela – lã – muito fértil de ervas para gados,
coelhos
e perdizes; mas se caçam com muito custo pelo inculto do sítio. Estes tais rios nascem sem nome, e são muito naturais de
Bogas
,
Barbos
,
Bordalos
, e uns inocentes a que chegamos mais vezes chamados
Ruivalos
. Há também algumas
Trutas
, mas raras, e poucas vezes se vêem cá lampreias; e para satisfazer ao terceiro interrogatório juntamente com este.
Digo que a naturalidade dos rios é muito boa, assim o mostram as contínuas regadas de suas
veigas
– com as muitas ervas que produzem para pasto de todos os gados que há nesta freguesia: assim eles não foram tão importunos nos seus enchentes que tirando nesta terra a melhor substância, como ladrões, a vão sepultar nas áreas do campo de Coimbra, ambiciosos de o fazer mais largo, e retrocedendo as mesmas com a nossa terra, capazes de alagar a cidade e pôr em termos a ponto de negar sua passagem a barcos e gente.
Enquanto correm neste distrito, usam todos comummente de suas águas. E todos correm para o nascente entre Sul. Nunca deixam de manar de sorte que ainda na maior esterilidade, sempre os moradores desta freguesia e outras moem nos seus moinhos, e outros, pão, para sua casa e família. Em todos eles há moinhos, lagares de azeite, pisões, e os engenhos que cada um intentar. Todos têm suas pontes de pau e alguns de pedra: oxalá foram todos!
E porque me ocorre uma memória que me dizem não vai descrita na freguesia do Guardão, a meterei aqui, visto estar no rio, no princípio do rio, que do Caramulo vem a este lugar da Tojosa; e é que junto ao seu princípio, entre a Póvoa do Cedrozo = lugar das
Laceiras
= está em um ermo uma fonte memorável pelo artifício que tem lavrado e com seus letreiros para cuja fábrica há várias opiniões; porque uns dizem fora fábrica dos romanos, outros dos Mouros que assistiam muito nestas terras e aqui tiraram muitos metais especialmente ouro, prata, estanho, de que deixaram grandes tesouros, de que muitos se têm aproveitado, e o mostram os fossos e muitos indícios que nesta freguesia se admiram, e nas circumvizinhas, abrindo-se brechas em pedras mármores, que eles sem dúvida por artes diabólicas faziam. Donde se têm alguns aproveitado, e de outras coisas que se têm achado neste distrito: outras se acham sem nada. Sendo que o mais certo sobre a dita fonte é que certa pessoa nobre dos confins da Serra da Estrela por fugir ao rigoroso do castigo que seus crimes mereciam, veio para este deserto e serra; como fazia habitação junto àquela fonte, quis eternizar sua memória com a fábrica dela, e com os caracteres e letreiro que nela deixou; não sei mais coisa de memória desta freguesia, só sim que foi habitada dos Mouros e o mostram as aparências de uns círculos que se acham sobre o lugar de
Tojosa
, em três outeiros: o primeiro chamado a
Cabeça
, outro, a
Fervença
, junto ao porto do
Crasto
, outro defronte onde chamam a
Panasqueira
, que todos têm indícios de terem sido murados: ou fosse dos Mouros, ou dos Cristãos, que para se defenderem subiam a estes sítios e neles habitavam o que mais creio; e por verdade fiz de recomendação do Reverendo Padre Caetano Ferreira de Almeida esta descrição, que com ele aqui, como Cura desta Igreja, assinei, e eu Padre Manuel Antunes da Veiga que o escrevi.
O B.c Manuel Antunes da Veiga
O Padre Cura, Caetano Ferreira de Almeida.
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